AS PESSOAS SEMPRE ME PERGUNTAM QUANDO É A HORA CERTA DE PARAR UMA LONGA VIAGEM. E EU SEMPRE RESPONDO… QUANDO O SEU CORAÇÃO MANDAR. A verdade é que não existe um período certo e o seu corpo vai mandar sinais. Cada viajante vai sentir uma sensação diferente, mas o mais importante é respeitar esse sentimento. Se você sente fortemente que não quer voltar, vai voltar porque? Se vira e dá um jeito de continuar na estrada ou a volta vai ser dura. Se você sente que quer voltar antes do planejado, qual o problema? Nessa experiência não existe fracasso.

A viajante Lígia Amorim, da página Ligia Sabática, compartilhou recentemente o momento de decisão da viagem em que ela devia parar mas acabou decidido continuar na estrada. E eu achei super interessante compartilhar.

Texto de Lígia Amorim

Acordei e tinha um aviso no meu celular: SEU SUGURO VIAGEM VENCE AMANHÃ!

Fiquei algum tempo encarando aquele lembrete. A tela apagou, eu a acendi de volta. Sem saber o que fazer com a informação tentei voltar a dormir. Em vão.
Aquele aviso me lembrou que quando saí do Brasil essa era a data que eu pretendia voltar. E não é bem isso o que vai acontecer. Preciso continuar indo…

Foi muito fácil lembrar os motivos que me faziam crer naquela época que essa data era a sensata pra a minha volta: dia das mães, aniversário do meu pai, aniversário do namorado, casamento da amiga… “Ah.. 10 meses de viagem já vai estar bom!” Só que não!

Mas por que não? Quais são os motivos que me fazem querer ficar? Ou melhor, que me fazem querer continuar indo?

Resolvi sentar e listar o que mais tem me deslumbrado nessa viagem, o que me prende a essa liberdade que é não morar em lugar nenhum, que é ter minha casa dentro de uma mochila de 20kgs, que é continuamente comprar passagens apenas de ida… E cheguei a 5 motivos (bem pessoais) para querer continuar na estrada:

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1- O MUNDO É BÃO SEBASTIÃO!

O mundo é lindo! Mais do que qualquer imaginação ou sonho que eu possa ter. É cada paisagem de tirar o fôlego que só não digo que é coisa de outro mundo porque é desse mundo aqui mesmo que eu estou falando.

Quanto mais eu o conheço, mais eu me apaixono, e sinto que ele também se apaixona por mim. É raro isso, né? Preciso aproveitar! Vai que vira um relacionamento sério.

Nesses 10 meses já foram 15 encontros (ou países) diferentes, cada um com seu charme e encanto próprio. Uns chamam a atenção pela história e construções antigas, outros me conquistaram por sua beleza natural com praias, cachoeiras e vulcões. E tem também os “fodões”, que são pra mim aqueles que te pegam de jeito e te sacodem com um belo choque cultural. Uma loucura! Tem que estar preparada e aberta pra tudo nesse relacionamento com o mundo porque ele é uma caixinha de surpresas.

O tempo e os carimbos no passaporte apenas me revelam como é diverso e grande, muito grande esse planeta. O mapa só me mostra como ainda tem muito lugar diferente pra conhecer e viver. É um ciclo vicioso, não pretendo me tornar dependente, mas por hora não posso parar. Preciso continuar indo….

2- CONHECENDO A ESSÊNCIA DAS PESSOAS E NÃO PERSONAGENS

Quando estamos viajando temos a oportunidade de conhecer a essência das pessoas. Idade, profissão, onde estudou, onde trabalha, onde mora… Nada disso importa, no máximo perguntamos “da onde você é?”, não que isso importe também, mas é um jeito fácil de começar uma conversa com outro viajante.

Para quem está na estrada é simplesmente a essência da pessoa que importa. A vibe é a mesma? A conversa flui? Há troca de energia? De sorriso? O santo bateu? É muito louco, mas demora um tempo pra você perguntar (ou ser questionado) sobre onde ou o que estudou, onde ou se trabalha, sua idade… Condição financeira? Isso definitivamente não interessa na “mochileiros society”. O importante é que vocês estão ali, naquele momento, juntos em algum lugar do mundo! Temos consciência de que não estaremos ali pra sempre e por isso há um esforço quase que inconsciente de fazer o melhor possível daquele momento, mesmo que isso signifique ficar “de boas” sem fazer nada. Quem já conhece um pouco do lugar dá dicas pro outro e se ninguém conhece, partiu desbravar juntos! Coisa mais linda isso.

Quando quem você conhece é uma pessoa local, as perguntas que te fazem diferem bastante dependendo da cultura do lugar. Ex: Na Índia de cara já querem saber se você é casada ou não, por quê, e em seguida quanto é seu salário. Um senso de privacidade que impressiona, só que pela ausência dela.

Conversar com um local é esquecer de você e focar no outro, e pra mim o mais normal é querer investigar no que ele se difere. O que faz de alguém um vietnamita além do fato dele ter nascido no Vietnã? O que ele gosta de fazer que só é possível ser feito em seu país? O que é importante nessa cultura? Por quê? Qual é seu sonho? É preciso tomar cuidado pra conversa não virar um interrogatório. Você quer tanto conhecer de verdade aquela pessoa que acaba dando um jeito de isso acontecer e uma amizade entre culturas nasce. Ainda tem tanta gente diferente nesse mundo para conhecer e isso me faz querer continuar indo.

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3 – (RE)DEFININDO QUEM EU SOU

Até antes de começar essa viagem se alguém me perguntasse quem é a Ligia Amorim eu responderia: uma garota de 28 anos que nasceu em Brasília, estudou ADM na FGV em São Paulo, trabalhou como Gerente de Produto em uma multinacional blá blá blá… Mas e agora que ninguém e nem você se importa com isso? O que responder? Tudo bem, isso faz parte de quem eu sou, são experiências que vivi e trago comigo, claro. Mas eu sou só isso? O que tenho a oferecer ao mundo são minhas experiências e nada mais?

Viajar te permite sair de corpo e alma desse contexto onde somos apenas nossas experiências, nossas habilidades, nossas profissões, nossos bens, nossas conquistas e nossos fracassos (caso alguém saiba deles). Viajar te faz querer ir lá no fundo pra saber quem somos de verdade, antes e depois de tudo isso, e esse processo por si só já é uma viagem à parte. Viagem dura, difícil, e talvez sem fim… Dá muito mais medo ir para “quem eu sou” do que embarcar pra algum destino não turístico onde ninguém fala a sua língua.

Essa viagem sem fim é também um caminho sem volta e por isso é preciso ter tanta coragem pra começar. Como em viagens normais, no autoconhecimento nem tudo que encontramos é belo, mas saber quem somos é o primeiro passo para se amar e querer ser alguém melhor a cada dia. Demorou, mas embarquei nessa “trip aí” também e sinto que estar na estrada me ajuda a caminhar nesse processo que está apenas no começo e por isso preciso continuar indo…

4 – QUANDO VOCÊ NÃO TEM NADA, VOLTA A ACREDITAR QUE TUDO PODE

Cuidar da minha vida é hoje minha única obrigação e eu acredito que essa condição abriu espaço na minha mente para enxergar no mundo um turbilhão de oportunidades e possibilidades que eu antes não via por estar “muito ocupada”.

Ter tempo pra mim possibilitou que eu me enxergasse de uma nova forma e com isso hoje posso ver um novo mundo também. Como não “tenho que nada”, estou disponível para as oportunidades que aparecem e vivendo coisas novas todos os dias, isso me faz expandir minhas crenças e me permite sonhar mais alto, grande e longe. Veja bem, disse expandir minhas crenças e não trocá-las. Não está sendo preciso deixar crenças antigas pra trás, algumas ficaram pelo caminho, mas bem poucas. Sinto que o que acontece é mesmo um acúmulo delas. Consigo acreditar em medicinas e tratamentos alternativos e no avanço da ciência, em almas gêmeas e em relacionamentos abertos, em novas formas de trabalho, de vida. Acredito em uma nova profissão pra mim, mas também em ser feliz com a que já tenho. Acredito que tanta coisa é possível que fica até difícil saber o que quero pra mim.

Dizem que é preciso se perder antes de se achar, então pelo visto eu estou super, mega, ultra, demais da conta de no caminho certo. Perdida e feliz! Quem diria… Para uma pessoa que sempre soube o que quer, como eu, é quase impossível achar que seria feliz assim, perdida. Mas vejo que se perder faz parte do processo e é assim mesmo que me sinto. Perdida e feliz.

PS:Preciso confessar que vezes bate sim um desespero e angústia, mas nada que uma boa meditação não resolva.

Repetir os capítulos da minha própria vida em uma rotina, mesmo sendo a que eu mesma havia escolhido, estava limitando minha visão sobre a verdadeira realidade que é tão linda e ampla. Viajar me levou pro alto e hoje posso ver a vida de uma forma mais diversa e real. Antes de voltar desse voo preciso escolher pra onde quero ir, onde pousar, e por isso, por hora, preciso continuar indo…

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5- VIAJAR REJUVENESCE AO MESMO TEMPO QUE TE AMADURECE.

Amadureça e ainda aparente ter alguns anos a menos! Parece até promessa de dieta na capa de uma revista, né? Mas é isso mesmo que acontece quando você embarca em uma viagem de longa duração (pelo menos no meu caso).

Sair de uma rotina segura e se aventurar numa estrada desconhecida me fez perceber que ninguém é responsável por como me sinto a não ser eu mesma. Você não sabe mais com quem e nem com o que você pode contar, precisa puxar toda a responsa pra você e isso te faz crescer na marra. Estou percebendo, a cada decisão solitária que tomo, que não adianta culpar e nem contar com externalidades, as verdadeiras respostas estão aqui dentro de mim (muitas vezes eu ainda não as encontro mas sei que elas estão aqui em algum lugar rs.. E não lá do lado de fora). Aceitar que as escolhas são cada vez mais solitárias e não ter medo desse processo tem sido um bom indicador do meu amadurecimento. Me abalar menos quando as coisas fogem do meu controle também.

Ao mesmo tempo que me vejo mais madura me vejo também cada dia mais jovem, e não são só os quilinhos a mais e o rostinho mais redondo que me mostram isso. A pressa que eu tinha em “crescer na vida” me fez inconscientemente buscar conviver apenas com pessoas da minha idade pra cima, como se apenas elas tivessem algo a me ensinar. Mas como disse anteriormente, para os viajantes a idade é apenas um número e minha disposição em interagir com pessoas mais novas aumentou. No começo essa “pirralhada” até irritava, agora tenho grandes amigos de 18 e 21, 24 anos com quem aprendo muito a cada encontro e conversa jogada fora (além da galera de 30 pra cima).

Conviver com pessoas mais jovens me lembrou como é gostoso viver a vida de uma maneira mais leve, fez eu me permitir mais e querer me provar menos, para os outros e pra mim. Tirar esse peso das costas que é estar sempre se provando me tirou também a tensão e preocupação que me davam um “ar de mais velha”. Me preocupar menos me deu energia para me ocupar mais e estou com uma alegria e vitalidade que fazem eu me sentir e parecer mais nova. Pena que as pessoas não se interessam mais pela minha idade, se não ia dizer que tenho 23 aninhos com a maior naturalidade do mundo, apesar de já enxergar a casa dos 30 no horizonte.

Sei que é possível passar por tudo isso que estou passando em situações diferentes de uma viagem, mas pra mim o fato de estar na estrada, afastada de uma rotina, funciona como um catalizador de percepções e me possibilita enxergar essas mudanças com mais clareza. Sem contar que posso mudar o cenário da minha jornada quando eu quiser comprando uma nova passagem de ida para algum novo “lar”.

Me desculpem o mal jeito, mas preciso continuar indo…

“Deixe-me ir
Preciso andar
Vou por aí a procurar
Rir pra não chorar
Se alguém por mim perguntar
Diga que eu só vou voltar
Depois que me encontrar”

(E Viva o Cartola!)

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LÍGIA AMORIM

Curiosa, sem vergonha e de bem com a vida. Ama viajar e desde os 9 anos dá um jeito de “escapar” e morar fora um tempo. Na última escapada ousou mais, largou tudo e se jogou no mundo sem passagem de volta. Está na estrada há um ano e ainda não sabe quando voltar. Conheça mais: FB e Insta.


Eu concordo com cada vírgula que a Lígia escreveu e eu passei pela mesma situação que ela. Minha viagem devia durar 1 ano e acabou durando 2. Eu decidi continuar pois meu corpo dizia que não era hora de parar, ele não se sentia feliz com aquela possibilidade e eu sabia que parar seria um grande erro. Em um ano de viagem eu estava no auge do meu aprendizado e transformação e sentia que aquela experiência ainda tinha muito a me ensinar. Decidi continuar… E foi a melhor coisa que eu fiz. Quer continuar na estrada? Vai que dá!

Créditos fotos: Lígia Amorim

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