Viajar sozinha é uma escolha, ficar sozinha também é

QUANTAS PESSOAS DEIXAM DE FAZER UMA LONGA VIAGEM OU ATÉ MESMO UMA CURTA VIAGEM DE FÉRIAS COM MEDO DE FAZER SOZINHAS? Mas a grande verdade é que você só fica sozinho quando você quer. Ficar sozinho durante a viagem é uma escolha, pois o que não faltam são oportunidades para interagir e conhecer outras pessoas interessantes desse mundão. A Iracema Genecco, do blog Feminino 60, tem mais de 60 anos, já fez 3 longas viagens de 4 meses e sempre vai sozinha. Eu já virei fã dela e esse é o segundo post dela aqui na ViraVolta (leia o primeiro). Suas viagens estão cheias de encontros do acaso que proporcionaram experiências incríveis para a sua viagem e que mostram que um viajante solo só fica sozinho quando quer, independente da idade. Texto de Iracema Genecco: Ok, vou contar então sobre algumas vezes em que eu escolhi não estar sozinha, embora viajasse só comigo mesma. Foram ocasiões divertidas, que me proporcionaram bons momentos e boas lembranças. Está cheio de pessoas legais por aí, de vez em quando dou a elas a chance de me conhecerem. Para o diálogo inicial, às vezes adiciono um sorriso, em outras ocasiões, é a sorte que me sorri. Procuro levar em conta um ensinamento da minha filha: se precisar, escolho a quem pedir informações, pois a chance de esta pessoa aleatória ser “do mal” é mínima. Ao contrário, é bom desconfiar de quem me aborda puxando assunto sobre qualquer coisa. É provável que esta pessoa já estivesse me observando sem ser notada. Questão de intenções, sei das minhas, não as dos outros.

Um encontro a Sicília

Agora, pensa em uma cidadezinha no Sul da Sicília, meio-dia, eu voltando de um passeio aos templos gregos, caminhando devagarinho por uma rua deserta. Sim, os italianos praticam a sesta. Entre 13h e 17h, as pequenas cidades cerram as persianas das janelas e ninguém ousa sair de suas casas sob o sol escaldante. Só eu e meu chapéu branco de abas largas denunciando a quilômetros a minha condição de turista de primeira viagem. Ouço o barulho da porta de um carro batendo, vejo alguém saindo, um rapaz para e olha uma vitrine. Eu pergunto num italiano vacilante “cadê as pessoas desta cidade”? Ele vira e…. OMG! … um príncipe de Lampedusa de olhos azuis e cabelos escuros. Nem ouvi a resposta direito, paralisada como uma múmia de Pompéia. Simpaticíssimo, ele continuou a falar, ficamos ali alguns minutos conversando. Foi acrescentando sugestões (almoço, praia, pontos turísticos), eu avaliando. Em vez de respostas, eu fazia mil perguntas. Uma avaliação instantânea e minha intuição deram o aval. Entrei no carro e parti para uma tarde merecidamente perfeita. Com direito a guia nativo e visita a pontos que só os locais frequentam, boa conversa, galanteios (os italianos são incorrigíveis)! Para que eu provasse alguns doces típicos, o príncipe levou-me a uma confeitaria, apontava no balcão e enumerava os ingredientes, se eu sorrisse, ele mandava colocar na mesa. A cidadezinha ficou marcada com uma bandeira açucarada no meu mapa mental das boas lembranças.

Outro encontro a Sicília

Ainda na Sicília, observei uma senhora com uma mochila nas costas, em pé no ônibus em que seguíamos para o centro histórico de Siracusa. Deliberadamente puxei assunto com ela. Elke era alemã, passamos o dia juntas, fomos ao mercado público, demos muitas voltas. Para o almoço entramos em vários, até descobrir um pequeno e simples, onde aprovamos o peixe preparado para o gosto dos fregueses locais. Na volta para a Catânia, onde eu estava hospedada num hostel, Elke me propôs esquecer um passeio ao vulcão Etna que eu queria fazer no dia seguinte para ir com ela para a Calábria. Viajaria para o batizado de uma neta. Troquei meus planos e embarquei com ela para Tropea. Fui apresentada à Suora Domênica, uma freirinha nos seus 80 anos, que toma conta sozinha de um convento, onde aceita poucos privilegiados turistas como hóspedes. A cidadezinha fica encarapitada sobre uma rocha, de onde se vê a praia lá em baixo. Instalada num apartamento com banheiro, cozinha e um grande terraço para aquela vista toda, decidi ficar ali por algumas semanas. Não vi o Etna, mas tive Tropea (põe no Google pra sentir o impacto) por um preço que nunca vai constar em nenhuma promoção disponível. Tive a companhia da Elke, sua família, suas netas. Além das conversas e viagens de trem a cidades próximas com outros hóspedes. Ah, ali conheci uma francesa, Michele, fomos juntas conhecer a praias de Capo Vaticano, pedimos carona na estrada para voltar. Por causa da Michele, incluí Rouen, a cidade onde ela mora, no meu roteiro quando passei pela França. Eu não conheceria a cidade onde Joana D’Arc foi queimada na fogueira, se não tivesse puxado assunto com a Elke em Siracusa.

Um encontro em Nice

Na cidade francesa de Nice, eu brigava feio com um mapa quase no meio da rua, tentando encontrar uma das atrações, uma catedral ortodoxa. Vi uma senhora na outra esquina, olhando atentamente seu próprio mapa. Identifiquei uma russa pelas feições, pensei: “ela está indo na catedral, vou pegar carona”. Não deu outra. Entendimento imediato, já nasceu ali uma amizade que ultrapassou aquele e os dias seguintes, quando decidimos ir juntas a Mônaco e Monte Carlo. Larissa nos recebeu quando minha filha e eu estivemos na Rússia. Foi guia e amiga perfeita, tornou nossa estada em Moscou bem mais agradável e ainda ajudou-nos a montar a programação para St. Petersburgo e arredores. Larissa falou-me com entusiasmo de um local próximo a New Jersey, no caminho entre Nova York e Filadélfia: o Grounds for Sculpture. É um imenso parque, na localidade de Trenton, com reproduções de obras dos pintores impressionistas, que eu amo de paixão. A gente pode tirar fotos como se estivesse dentro de um quadro de Monet, Van Gogh, ou Rembrandt. Corta – três anos depois – para um cenário nos Estados Unidos. Foco em mim: lá estou eu, no Grounds for Sculpture!

Um encontro na Filadélfia

O hotel em que fiquei na Filadélfia inventou um sistema infalível para proporcionar entrosamento entre os hóspedes: serve queijos & vinhos no hall de entrada. A partir das 17h, pega bem aquele intervalo em que muitos retornam para um banho e um descanso antes de sair de novo. As noites da cidade são cheias de gente nas ruas, agito constante. Durante uma dessas conversas regadas a queijos & vinhos, um grupo de desconhecidos descobre afinidades e decide prolongar aqueles momentos. Saímos então para jantar no mesmo restaurante e, quem sabe, dançar um pouco. Resumo: uma noite agradável, confirmando o que diz o título deste texto: viajar sozinha é uma escolha, ficar sozinha também é. Mas, às vezes, prefiro não.
ViraVolta, Volta ao Mundo, Viagem pelo Mundo, Viagem Longo Prazo, Viagem mais velho, Colaborador

IRACEMA GENECCO

Achou que fazer 60 anos merecia um presente inesquecível e em grande estilo. Decidiu dar a si mesma um presente inesquecível: inventou de pegar uma mala e se jogar no mundo. Isso foi em 2011. Desde então, não consegue mais ficar sossegada em casa. Saiba mais: Feminino 60

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